segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Entrevista com Eliana Rodrigues Araújo ( de 2007)

Recuperei esta entrevista com a Eliana Araújo, de 2007, do blog TAI. Pouco ou nada mudou, não é mesmo?
Obrigada mais uma vez Eliana! Beijos


Entrevista com Eliana Rodrigues Araújo, pedagoga, psicopedagoga, mãe de um jovem com Síndrome de Asperger TAI: 1. O autismo ainda é um "patinho feito" no movimento de defesa das pessoas com deficiência. Na sua opinião como é poderia haver uma aproximação maior entre esses grupos? ELIANA – Acredito que o autismo é muito recente em termos de “descobrimento” e por isso, ainda esteja buscando seu espaço nos movimentos. Além do que muitos grupos, por suas estruturais organizacionais, são extremamente segregacionistas, lutam e/ou priorizam suas bandeiras por aquele grupo com ideias comuns – se pensa diferente está fora! - priorizando as individualidades e esquecendo a diversidade. Acho que os movimentos deveriam ampliar o ângulo de visão e olhar do macro para o mínimo, isto é, das necessidades amplas – formação de professores para diversidade, escolas com espaços, estruturas e profissionais capacitados à diversidade, profissionais de saúde também capacitados à diversidade – para depois, quando todos tivessem essa estrutura mínima que contempla a todos, lutarem por suas especificidades. TAI: 2. Como tem visto a atuação dos representantes das pessoas com autismo no âmbito dos movimentos inclusivos ? ELIANA: Para mim os representantes legítimos são os pais, professores, alguns terapeutas... são essas pessoas, individualmente, que estão na linha de frente, ouvindo absurdos, reclamando, chorando, batendo de frente e conseguindo pequenas – GRANDES - conquistas. Os pais que estão lutando para manter um filho na escola, enfrentando todos os problemas que conhecemos muito bem, deveriam receber uma medalha por serviços públicos prestados! Pense bem: se uma escola com 300 alunos, 62 profissionais (diretores, professores, auxiliares de serviços gerais) tem a oportunidade de conviver todos os dias por longos anos com uma criança com autismo, não verbal, comportamento desafiante à compreensão do senso comum, vai aprender muito sobre diversidade. Essas pessoas (escola) não saem desse convívio do mesmo modo que chegaram. É um convívio/aprendizado importante onde todos ganham, que foi proporcionado por essa família. E dentro da minha compreensão de movimento, este é o caminho certo. As representações institucionais – associações, institutos, fundações – devem focar a luta em prol da diversidade, por condições sociais amplas que atendam a todos, e por esse viés de compreensão essas associações deveriam juntar-se em blocos para reivindicar políticas públicas nos âmbitos governamentais. Soa utópico? Mas não deveria. A sociedade brasileira tem 14% de seus cidadãos com algum tipo de deficiência e juntos poderiam formar uma corrente muito mais forte. TAI: 3. Existem hoje, programas de públicos ou privados direcionados a esse público? Se sim, qual é o foco dos mesmos ? ELIANA: Existem sim. Costumamos, no fervor das discussões, dizer que “não há nada” “não se faz nada”, mas no racional temos que ser coerentes com nossa própria luta. Temos uma legislação que por si só, se fosse cumprida, já bastava! Nos eventos científicos tomamos conhecimento de atendimentos especializados que estão sendo realizados em instituições especializadas, clínicas particulares, universidades e até em alguns serviços públicos. O foco é bastante amplo, alguns focam na inclusão, outros em diagnósticos e outros ainda em tratamento. Por que não aparece? Porque são poucos para a demanda, e talvez, por serem pouco divulgados. TAI: 4. Inclusão na escola e na vida independente - o que está acontecendo, em geral, para que essas propostas se efetivem de verdade ? ELIANA: Acho que o caminho da inclusão e da autonomia para uma vida independente passa necessariamente pela escola e precisamos ter para com essa um mínimo de compreensão. Via de regra o professor, diretor e coordenador escolar estão muito mais assustados que nós. E se nós, que temos a experiência do convívio diário não sabemos como cuidar, como ensinar, imagine alguém quem nunca viu uma pessoa com autismo! Existem experiências bem sucedidas e malsucedidas, e muitas ainda em caráter experimental, em muitas escolas públicas e privadas espalhadas pelo Brasil a fora. E para que essas propostas se efetivem não podemos manter uma postura do “vou esperar o outro fazer para ver o que acontece...” acho que temos, com toda dignidade, transpor os muros das escolas (e sociedade) e nos instalarmos ocupando “nosso espaço”. TAI: 5. Que mensagem você gostaria de dirigir a pais, professores e terapeutas ligados diretamente às pessoas com autismo? ELIANA: Esqueçam o “autismo” da pessoa e pensem a “pessoa” com autismo! Acho que num primeiro momento, até para chamar atenção e também por falta de conhecimento, divulgamos informações sobre o “autismo” que não são mais admitidas hoje em dia. Conceitos do tipo “pessoas fechadas em seu mundo”, “agressivas”, etc, não podem ser divulgados com esse caráter definitivo, permanente! Pense a pessoa com autismo como uma pessoa/criança, que, por não saber falar (ou não saber que precisa falar), bate, empurra ou pega pela sua mão em vez de pedir verbalmente. Por não saber falar ou mesmo sabendo falar mas não “sabendo explicar o que sente”, bate a cabeça, grita, morde, destrói objetos, para exprimir seus sentimentos. Pessoa que, por incômodo sensorial (luz, som, textura), prefere ficar caladinha com algo que lhe dá conforto, bem estar, como por ex. empilhar objetos, cantarolar mantras (que pra nós não tem significado mas pra ele deve ter), ficar horas fazendo movimentos (para nós incompreensíveis) que lhe dá prazer. Nesse contexto eu digo esqueçam o autismo e procurem compreender a “pessoa” que já terá meio caminho percorrido. O mistério do autismo não está na pessoa com autismo, mas em nosso desconhecimento sobre a diversidade humana.

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