quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Revista Piauí: Minha tia Chus

por Nacho Carretero
Não é fácil para Chus subir as escadas do ônibus, de manhã. Seu corpo roliço luta para galgar cada um dos degraus: primeiro uma perna, depois a outra, e começa tudo de novo. Ela vive em seu ritmo, o mundo em outro. Que esperem. Chus é baixinha, rechonchuda, e ao caminhar se balança sobre os pés diminutos, curiosamente dotados de uma força espantosa. Suas mãos, também pequenas, agarram-se às barras laterais para completar a subida. Ela sabe praticamente de cor que movimentos fazer, pois não enxerga quase nada.
Chus nasceu cega de um olho e está perdendo a visão do outro. Ao chegar a seu assento, deixa-se cair com tudo. Uma assistente social ajeita a presilha que prende seu cabelo e lhe dá bom-dia. O ônibus arranca e Chus – cujo nome é María Jesús, mas é chamada de Chus por todo mundo – esfrega devagar as mãos avermelhadas pelo frio. Dá uma olhada ao redor, com um sorriso no rosto – do qual não se separa nunca –, e depois retorna a seu mundo interior, indecifrável, profundo, enquanto o ônibus parte. Lá fora a chuva gelada da manhã molha as janelas.
“Certa manhã o pediatra telefonou e pediu para irmos vê-lo no dia seguinte”, conta meu avô, sério, sentado numa poltrona de sua sala. O ano era 1958. Três meses haviam se passado desde o nascimento de Chus. Quando meus avós chegaram ao consultório, o médico não fez muitos rodeios. “Creio que esta menina é mongoloide.” “O que é isso?”, perguntaram. “Não sabem o que é mongoloide?” “Não.” “Não acham ela diferente?” “Não.” “Crianças assim não se desenvolvem bem e têm retardo mental.” Houve um silêncio. “Ela é boba?”, perguntou meu avô. “Em termos médicos, é idiota. Tem idiotia.”

Continua: http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-97/historia-pessoal/minha-tia-chus

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