segunda-feira, 11 de julho de 2011

Do Blog do Alysson Muotri - http://g1.globo.com/platb/espiral/

Repensando a esquizofrenia



Seria a esquizofrenia uma forma de "autismo adolescente"? A pergunta pode soar como blasfêmia entre psiquiatras e psicólogos, mas a ciência tem desafiado definições clinicas e apontando para novas formas de se pensar as doenças mentais. Um trabalho publicado essa semana pelo grupo do Instituto Salk, na Califórnia, entra de cabeça nessa linha de pensamento e promete chacoalhar esse campo de pesquisa (Brennand e colegas, Nature 2011).
A esquizofrenia é uma síndrome, uma coleção de sintomas de origem desconhecida, predominantemente definida pela presença de sinais de psicose como alucinações ou desilusões paranoicas. Acontece com frequência durante a adolescência e afeta cerca de 1% da população mundial. A origem da palavra esquizofrenia alude à separação ("esquizo") da mente ("frenia") frente a realidade. São diversos os exemplos de esquizofrenia na história humana. No Brasil colônia, atribui-se o "banzo" (termo de possível origem africana que significa meditação ou introspecção) a doenças mentais como a esquizofrenia, para justificar a alta incidência de suicídio entre os escravos. É provável que essa melancolia depressiva e esquizofrênica tenha origem nas condições desumanas a que eram submetidos, na desnutrição ou mesmo no alto consumo de álcool e maconha (ambos já relacionados à indução precoce de esquizofrenia).
Para tentar entender como a esquizofrenia afeta as redes neuronais, o grupo do Instituto Salk usou uma estratégia descrita anteriormente pelo nosso grupo para uma síndrome com base genética definida do espectro autista (Marchetto e colegas, Cell 2010) (http://g1.globo.com/platb/espiral/2010/11/29/combatendo-o-autismo-consertando-um-neuronio-de-cada-vez/). Basicamente, a ideia éreprogramar células somáticas de pacientes para um estágio pluripotente e então induzir a especialização neuronal. Compara-se então neurônios derivados de diferentes pacientes esquizofrênicos com neurônios derivados de indivíduos não-afetados. Esse tipo de estratégia elimina qualquer influência ambiental, pois os neurônios estão se desenvolvendo em um ambiente controlado em laboratório.
Não foi fácil encontrar diferenças entre o grupo esquizofrênico e o grupo controle. A primeira observação foi a de que os processos ou arborizações neuronais seriam menores em neurônios derivados dos pacientes. Isso é bem semelhante ao que descrevemos previamente para neurônios obtidos de pacientes com o espectro autista, sugerindo vias moleculares semelhantes entre as duas síndromes. Mas a grande surpresa veio quando o grupo usou um tipo de vírus da raiva modificado, que é transportado entre as conexões neuronais, as sinapses. Usando essa ferramenta, eles conseguiram demonstrar que "neurônios esquizofrênicos" estabelecem menos contatos sinápticos do que neurônios normais. Esse defeito pode ser consertado após tratamento com a droga anti-psicótica Loxapine.
Existem alguns pontos críticos nesse trabalho que merecem ser analisados com certa cautela. Primeiro, as análises genéticas de cada paciente sugerem que cada um tem um tipo diferente de esquizofrenia. Mesmo assim, todos os neurônios se comportaram de maneira semelhante, o que é, no mínimo, fascinante. Segundo, a maior diferença encontrada está baseada num ensaio biológico pouco conhecido: ninguém sabe realmente como o vírus da raiva é repassado de neurônio para neurônio. Mais problemático ao meu ver, é a falta de concordância com os dados de eletrofisiologia que, basicamente, estariam medindo a mesma coisa. Os autores não explicam muito bem esse ponto e escapam pela tangente, atribuindo as discrepâncias aos diferentes métodos usados e sugerem futuras investigações.
De qualquer forma, os resultados suportam as evidências recentes de que, assim como o autismo, a esquizofrenia pode ser modelada com redes neurais humanas. Isso é forte argumento contra fatores ambientais e sugere que a doença é, em si, neurológica e não psiquiátrica. Esse nova forma de repensar doenças psiquiátricas deve ter um impacto imediato na medicina (novos tratamentos) e na sociedade (contribuição da redução do estigma em doenças mentais).
Na medicina, antecipo o uso de neurônios derivados de pacientes esquizofrênicos sendo usados para triagem de novos medicamentos que consigam corrigir os defeitos sinápticos. Tão importante quanto, visualizo o uso dessas redes neuronais como ferramenta crucial para entendermos os mecanismos que induzem a esquizofrenia. Por exemplo, pela primeira vez na história, pode-se testar qual o real impacto de componentes da maconha em redes neuronais humanas num ambiente controlado. No Brasil, pelo menos um grupo já publicou ser capaz de reprogramar células humanas, tornando o país mais competitivo  nessa área (http://g1.globo.com/platb/espiral/2011/03/17/pesquisa-de-ponta-no-brasil/).
A contribuição social virá através da queda do estigma psiquiátrico, deixando de atrapalhar o diagnóstico e o tratamento sério. Por causa disso mesmo, lanço uma proposta ao Ministério da Saúde para mudarmos o nome da síndrome em Português, da mesma forma como foi feito no Japão. Em 2002, os japoneses trocaram o termo que utilizam para designar esquizofrenia de "Seishin-Bunretsu-Byo" (doença da mente ausente – tradução livre minha) para o oficial "Togo-Shitcho-Sho" (síndrome de integração). Fica registrada a ideia.

qui, 14/04/11
por Alysson Muotri |
categoria Espiral

Um dia azul




Dia 2 de Abril é o dia mundial de conscientização do autismo, data que tem o suporte da Organização das Nações Unidas (ONU) desde 2008. Pela primeira vez, o Brasil entra oficialmente nesse roteiro mundial e celebra iluminando monumentos e prédios importantes em diversas cidades com a cor azul – a cor escolhida para representar essa síndrome.
De forma simplista, as síndromes do espectro autista revelam comportamentos comuns: a dificuldade no relacionamento social, na linguagem e movimentos repetitivos. O termo "espectro" sugere justamente que esses comportamentos são extremamente variáveis de pessoa para pessoa. O fato de ser uma síndrome que começa relativamente cedo, durante o desenvolvimento infantil, traz conseqüências sérias para paciente, familiares e estado.
O autismo é um espectro de síndromes com forte contribuição genética e hereditária. Afeta cerca de uma em cada cem crianças nos EUA e provavelmente uma incidência semelhante no mundo todo. Uma incidência bem mais alta que a maioria das outras síndromes infantis. A genética do autismo é complicada e já foram descrito cerca de 300 genes envolvidos com o espectro. Existem casos mais simples, causados por mutações em apenas um gene, responsável pela regulação de outros genes em uma cascata molecular. Mas esses são casos mais raros, em geral, mais agressivos. Na maioria dos pacientes, são mais de um os genes afetados.
Além disso, soma-se a contribuição das mutações esporádicas, que acontecem o tempo todo e em todos os indivíduos, mas pode fazer a diferença naqueles que já possuem predisposição. Modelos matemáticos, baseados em dados da literatura, estimam que haja uma interação de entre três e dez genes, afetando de duas a três vias metabólicas importantes para o desenvolvimento cerebral. Fica difícil de identificar a forma que como o autismo é transmitido hereditariamente e é praticamente impossível de se conseguir um método de diagnóstico genético com as técnicas atuais.
Esse cenário complexo e confuso dá oportunidade à "razão emocional". Vacinas, preservativos, falta de amor ou qualquer outro fator são acusados de estarem associados ao autismo. Levam-se anos para desmistificar algumas dessas associações precipitadas, perdendo verbas que poderiam servir para projetos científicos mais fundamentados.
O que pode ser feito para ajudar? A conscientização é o primeiro passo. Organizações de pais são muito importantes para manter a pesquisa viva. Nos EUA, diversas associações de pais e pacientes participam na arrecadação de fundos para a pesquisa. Pode parecer pouco, mas se conseguirmos pagar o salário de mais um pesquisador na área por um ano, a pesquisa acelera de forma significativa. No Brasil, destaco a Revista Autismo (http://revistaautismo.com.br/) que, embora jovem, já causa um impacto na comunidade brasileira e internacional.
A boa notícia é que o autismo não é neurodegenerativo, ou seja, não existe "perda" de neurônios com o tempo. Na verdade, crianças que são diagnosticas cedo e entram num programa de tratamento e estímulos têm mais chances de se recuperar. Essa reação do cérebro faz parte do fenômeno de plasticidade neuronal. Da mesma forma que acontece nos pacientes, neurônios derivados de crianças afetadas possuem o potencial de reverter esse "estado autista", comportando-se como se fossem neurônios sadios. Medicamentos que possam acelerar o processo estão sendo pesquisados e as perspectivas são positivas. Existe razão para manter o otimismo alto.
http://g1.globo.com/platb/espiral/

sáb, 02/04/11
por Alysson Muotri |
categoria Espiral

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